Terra, poeira; pés descalços, com unhas
encravadas; meninos suados, sujos, fedidos e apaixonados por futebol. Um ponto
de encontro e nossa segunda casa. Assim poderíamos definir o Planaltão. Lugar
de felicidade e muitas bolas ao vento, onde altas jogadas, feias ou bonitas,
sempre proporcionavam aqueles gols fenomenais. Havia sempre aquele “bonzão” que
no final pagava um gol no “Inacreditável Futebol Clube”. Às vezes tinham
jogadas a la Ronaldinho, Pelé e até Messi, mas a participação dos “sem querer”
não podia faltar, e, como sempre, aparecia um toque especial e particular de
cada jogador.
Quando chegavam os moleques fazíamos a
contagem, se conseguíssemos seis para cada lado, não importava se eram amigos
ou inimigos, os times estavam formados e era só um gritar, num dialeto bem
paraense: “Agora ta du vale!” (está valendo), que a paz acabava. Era sebo nas
canelas, partíamos pro jogo, ali virava um campo de batalha, cada um com a sua
estratégia, porque ser treinador ninguém queria, queríamos mesmo era a magia da
pelota; e assim, bola pra cá, bola pra lá, goleiros passando perrengues,
zagueiros dando bicão na redondinha e sempre saia um:
— Pega ela. Acredita.
Isso virara um bordão. Podia fazer sol,
chuva e até sereno, mas toda vez jogávamos até não ver a bola. Quando a
escuridão caía, não importava se tivesse 90 a 0, quem fizesse o último gol era
consagrado campeão do dia. Juiz ali não tinha (sorte pra mãe dele), brigas ali
tiveram algumas, assim como muitas amizades encontradas e renascidas, mas nada
que interferisse nas nossas peladas.
Nosso maior ídolo foi o Toin, revelado
pelo Planaltão F. C., que dali foi jogar no Paysandu, lá jogou apenas três
jogos e no último entrou para fazer parte da maior vitória daquele time e o infeliz
foi o River Plate: aos 43 do segundo tempo o nosso Toin fez o tão sagrado gol,
e na comemoração veio o nosso orgulho, tirou a camisa, mesmo consciente do
cartão amarelo que levaria, e com outra por baixo mostrou a frase que para os
planaltenses era a mais linda de todas.
“Planaltão, eu I Love, Planaltão!”
Com vários erros, mas foi o nosso maior
orgulho mesmo!!!
Mas como tudo o que começa acaba. Agora
o barulho das máquinas revela que a cidade está crescendo e que o novo
proprietário do terreno onde ficava o nosso Planaltão vai realizar o seu sonho
de um prédio novo, nem se importando com as tristezas e saudades das crianças,
jovens e adultos que faziam daquele lugar um magnífico estádio. Não entrou ali
um velho de canivete na mão para cortar a bola e fazê-la sangrar, entraram
engenheiros e operadores para cavoucar e enterrar a nossa alegria.
Da quadra da escola, vemos indo embora
os nossos risos, silenciando os gritos de euforia e brotando a lágrima da
saudade. Queria ter agora a força de um super-herói para poder parar aquelas
máquinas cruéis. De pé na arquibancada, com os nossos corações partidos,
calados, com o choro enroscado na garganta observamos tudo ir de trave abaixo.
Homens trabalhando para construir uma cidade mais moderna, evoluída, fazendo
brotar salas que receberão os pés limpos, unhas feitas, sapatos engraxados, de
salto, no lugar que até bem pouco tempo recebia os pés de moleques que sonhavam
em um dia ser jogador de futebol!
Mas Planaltão é assim, pra sempre!
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