quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Planaltão forever

   Terra, poeira; pés descalços, com unhas encravadas; meninos suados, sujos, fedidos e apaixonados por futebol. Um ponto de encontro e nossa segunda casa. Assim poderíamos definir o Planaltão. Lugar de felicidade e muitas bolas ao vento, onde altas jogadas, feias ou bonitas, sempre proporcionavam aqueles gols fenomenais. Havia sempre aquele “bonzão” que no final pagava um gol no “Inacreditável Futebol Clube”. Às vezes tinham jogadas a la Ronaldinho, Pelé e até Messi, mas a participação dos “sem querer” não podia faltar, e, como sempre, aparecia um toque especial e particular de cada jogador.

Quando chegavam os moleques fazíamos a contagem, se conseguíssemos seis para cada lado, não importava se eram amigos ou inimigos, os times estavam formados e era só um gritar, num dialeto bem paraense: “Agora ta du vale!” (está valendo), que a paz acabava. Era sebo nas canelas, partíamos pro jogo, ali virava um campo de batalha, cada um com a sua estratégia, porque ser treinador ninguém queria, queríamos mesmo era a magia da pelota; e assim, bola pra cá, bola pra lá, goleiros passando perrengues, zagueiros dando bicão na redondinha e sempre saia um:
— Pega ela. Acredita.
Isso virara um bordão. Podia fazer sol, chuva e até sereno, mas toda vez jogávamos até não ver a bola. Quando a escuridão caía, não importava se tivesse 90 a 0, quem fizesse o último gol era consagrado campeão do dia. Juiz ali não tinha (sorte pra mãe dele), brigas ali tiveram algumas, assim como muitas amizades encontradas e renascidas, mas nada que interferisse nas nossas peladas.
Nosso maior ídolo foi o Toin, revelado pelo Planaltão F. C., que dali foi jogar no Paysandu, lá jogou apenas três jogos e no último entrou para fazer parte da maior vitória daquele time e o infeliz foi o River Plate: aos 43 do segundo tempo o nosso Toin fez o tão sagrado gol, e na comemoração veio o nosso orgulho, tirou a camisa, mesmo consciente do cartão amarelo que levaria, e com outra por baixo mostrou a frase que para os planaltenses era a mais linda de todas.
“Planaltão, eu I Love, Planaltão!”
Com vários erros, mas foi o nosso maior orgulho mesmo!!!
Mas como tudo o que começa acaba. Agora o barulho das máquinas revela que a cidade está crescendo e que o novo proprietário do terreno onde ficava o nosso Planaltão vai realizar o seu sonho de um prédio novo, nem se importando com as tristezas e saudades das crianças, jovens e adultos que faziam daquele lugar um magnífico estádio. Não entrou ali um velho de canivete na mão para cortar a bola e fazê-la sangrar, entraram engenheiros e operadores para cavoucar e enterrar a nossa alegria.
Da quadra da escola, vemos indo embora os nossos risos, silenciando os gritos de euforia e brotando a lágrima da saudade. Queria ter agora a força de um super-herói para poder parar aquelas máquinas cruéis. De pé na arquibancada, com os nossos corações partidos, calados, com o choro enroscado na garganta observamos tudo ir de trave abaixo. Homens trabalhando para construir uma cidade mais moderna, evoluída, fazendo brotar salas que receberão os pés limpos, unhas feitas, sapatos engraxados, de salto, no lugar que até bem pouco tempo recebia os pés de moleques que sonhavam em um dia ser jogador de futebol!
Mas Planaltão é assim, pra sempre!

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